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quinta-feira, 11 de julho de 2024

Relato de sessão, Dungeon Trash, Dia 5


Dungeon Trash* - Jogo teste aberto

Sessão 3: 16/06/24 no Discord do Rizoma

(Agradecimentos ao César pelo espaço, ao Marcelo e ao Xikowisk pelo espaço nos blogs para hospedar os relatos)

Jogadores: Gustavo, Thiago Elendil, Bruno, JP, Serejo e Xikowisk

Personagens: Dimas (Gustavo), Afrânio (Elendil), Antônio (Bruno), Nárnia (JP), 5ª série (Serejo) e Zé (Xikowisk)

Dia 5 do Segundo Ano Pós-Bomba

O dia começou sombrio, com uma chuva persistente que teimava em lavar a desolação do mundo. Afrânio, Dimas, Zé e 5ª série decidiram esperar o aguaceiro cessar antes de arriscar mais uma incursão à superfície. 5ª série, um adolescente recém-chegado ao bunker, observava com olhos curiosos e atentos.

Zé, com gesto mecânico, fervia a água, tentando desesperadamente amenizar a ação dos poluentes na fétida e escura substância. Alimentaram-se do queijo encontrado por Dimas no dia anterior e beberam a água fervida, que parecia qualquer coisa, menos água. Dimas, Afrânio e Zé não suportaram o líquido, contraindo uma indisposição estomacal. Apenas 5ª série permaneceu incólume, talvez devido à juventude que o tornava mais resiliente.

Quando a chuva finalmente cessou, os quatro partiram para o oeste, esgueirando-se entre pilhas de entulho e lixo que adornavam as ruas. Em meio à caminhada, avistaram um homem parado, vasculhando uma pilha de lixo com um olhar de quem busca um tesouro perdido. Aproximaram-se e trocaram algumas palavras. O homem se revelou como Nárnia, um sobrevivente em busca de mais um dia de vida. Ele se juntou ao grupo, e seguiram em direção ao oeste, buscando a esperança líquida em forma de água potável.

Horas de caminhada se passaram até avistarem outro homem, agora em cima de uma pilha de detritos, brandindo um livro e gritando para o vazio. Afrânio, com a curiosidade que só os desesperados possuem, aproximou-se para dialogar. O homem, um idoso aparentemente cego, proclamava a missão de espalhar a palavra dos grandes. Zé aproximou-se, impiedoso e declarou:

-Vou usar de misericórdia com este velho, ele está claramente louco! E puxou o facão.

O homem, ouvindo a voz, começou a murmurar uma benção enquanto sua garganta inflava grotescamente, semelhante à de um sapo. Afrânio, espantado, perguntou:

-Você não era cego, como sabe que somos dois?

O velho, com uma voz gutural, respondeu:

-Sou cego, não surdo.

De sua boca saiu um arroto podre, seguido por um jato de líquido verde e ácido que atingiu Afrânio e Zé, queimando lhes a pele. Enfurecido, Afrânio sacou seu revólver e, com um tiro certeiro, explodiu a cabeça do infeliz. Vasculhando seus pertences, encontraram três latas de feijão, um canivete e um livro em branco.

Saíram da estrada, escondendo-se atrás de uma pilha de lixo para tratar os ferimentos e mordiscar um pedaço de queijo. Um homem se aproximou, apresentando-se como Antônio. Ele alegou conhecer 5ª série, que confirmou a informação. Antônio se uniu ao grupo e, após comerem e cuidarem das feridas, seguiram em frente.

5ª série subiu em escombros para tentar avistar além e ajudar na definição de uma rota. Do alto de uma casa em ruínas, observou:

Oeste: Condomínio de prédios em ruínas, com um prédio central intacto.

Norte: Vastidão de lixo e ruas.

Sudeste: Descampado com lixo e a silhueta de um navio naufragado.

O grupo decidiu investigar o condomínio. Ao chegarem, Afrânio e 5ª série se aproximaram do prédio intacto, cujas paredes escorriam uma gosma verde. 5ª série, com um borrifador, aplicou álcool na gosma, que borbulhou, mas continuou a escorrer. Afrânio, com um pedaço de cano, cutucou a substância, que revelou uma face grotesca cheia de dentes finos. A criatura tentou morder Afrânio, que, em um reflexo, arremessou o cano longe e começou a esmagar a face com uma pedra.

Apesar do acontecimento bizarro, decidiram entrar no prédio. Nárnia percebeu que havia energia elétrica no local. Afrânio, 5ª série, Antônio, Nárnia e Dimas entraram, enquanto Zé ficou de guarda do lado de fora. No hall de entrada, encontraram um ambiente organizado, típico de um prédio comercial, com um elevador e uma porta para as escadas, além de seis pilares imponentes.

Lá fora, Zé ouviu passos vindo do lado esquerdo do prédio. Correu para uma cobertura nas ruínas próximas, observando três criaturas semelhantes às que havia encontrado no hospital dias atrás. Zé, alarmado, correu de volta para o prédio, alertando os amigos:

Preparem-se, três criaturas estão a caminho!

Um confronto mortal teve início. A rápida decisão de Zé salvou o grupo naquele dia. As criaturas grunhiram e brandiram machados, mas foram prontamente recebidas com disparos. Afrânio e 5ª série, com seus revólveres, derrubaram duas das três bestas. Antônio e Nárnia, com arco e atirador de pregos, não deixaram espaço para reação. Peneiradas por balas, flechas e pregos, caíram inertes, sangrando um líquido negro e viscoso.

Com medo de que o barulho atraísse reforços, o grupo fugiu do prédio, rumando de volta ao bunker. Não encontraram água, mas o dia não foi totalmente perdido. Com o profeta dos grandes, conseguiram três latas de feijão enlatado, um canivete e três machadinhas das criaturas mortas na porta do prédio antes de sair correndo.

Anotações de Gustavo Negreiro

Fim da sessão.

Thiago Roos

*Dungeon Trash é um jogo de horror e sobrevivência trash em um mundo devastado pela poluição ambiental. Está em fase de jogos-teste e é de autoria de Thiago Roos e Thiago Elendil.

terça-feira, 9 de julho de 2024

Relato de sessão, Kalymba, parte 2, O Templo da Palha de Pedra


Aventura: O Templo da Palha de Pedra (23/06/2024)

Griô: Rodrigo Semente

Protagonistas: Groc (Gabriel), Ord Nalam (Felipe), Malika (Kaline), Kaki (Lucas) e depois Wina (Xikowisk).

Sinopse:

A busca para descobrir a fonte de uma praga que assolava um rio levou os guardiões até uma rocha de pedra esculpida para parecer coberta de palha.

Agora quem irá explorar esse misterioso local, fonte de perigosas pragas que assolam o rio local?

(Missão 4 de Kartha, a cartografa)

Resumo: Seguindo as dicas de Wina e Nawi surgem Groc, um gorila oboniano devoto de Junagan, Kaki, um dooshura mandingueiro, Ord Nalam, um dooshura devota de Eksun e Malika, uma jengu devota de Legwã.

Eles se encontram de frente para o templo Ulom, e após derrotar dois Nzumbis eles percebem que para entrar no templo precisam fazer ebós dignos do Orixá. Eles procuram por barro e passam um bom tempo moldando e aquecendo o jarro de barro em uma fogueira. Quando prontos criam três jarros e os enchem d'água para fazer oferenda ao Orixa da Cura e da Doença.

Um Eles deixam na entrada, fazendo o símbolo do orixá abrir em uma passagem na parede rochosa. Eles entram por um corredor e Malika sente uma energia negativa forte. Eles decidem passar a noite no corredor se recuperando.

Quando acordam entram na sala, que possui várias estátuas de antigos devotos ou mundanas de Ulom, mas da boca das estátuas saem nuvens de insetos. Malika pensa rápido e conjura uma barreira mística, que os protegem de qualquer dano.

A dala possui dois caminhos, um da esquerda e outro para direita, eles rumam rumam para o caminho da esquerda, mas presentem algo negativo. Então decidem voltar e partir para o corredor da direita, e nesse momento Wina retorna e encontra o grupo. Eles exploram a passagem da direita e encontram uma sala repleta de nichos com pergaminhos onde registram vários itans, as histórias dos orixás.

Com o avanço do perigo eles decidem fazer daquela sala um ponto de passagem, e instalam um cristal de transporte para Pontalua.

Rodrigo Semente

https://discord.com/channels/757270907445182554/1216023037497966642/1254998049961410591

quarta-feira, 3 de julho de 2024

Relato de sessão, Dungeon Trash, Dia 4



Dungeon Trash* - Jogo teste aberto

Sessão 2: 15/06/24 no Discord do Rizoma (agradecimentos ao César pelo espaço, ao Marcelo e ao Xiko pelo espaço nos blogs para hospedar os relatos)

Jogadores: Gustavo e Ewerton

Personagens: Dimas (Gustavo), Tovak (Ewerton) e Gilmar (Ewerton)

-x-

Dia 4 do Segundo Ano Pós-Bomba

Era o quarto dia do segundo ano após a queda da bomba. Dimas e Tovak estavam no bunker, rodeados por sombras, debatendo sobre a escassez de recursos que ameaçava suas vidas.

— Já se passaram dois dias sem que tenhamos algo para comer e beber. Estou fraco pra cacete - resmungou Tovak, com a voz carregada de desespero.

— Vamos à superfície hoje. Vamos dar sorte, eu posso sentir - retrucou Dimas, com um otimismo desesperado.

Mal sabia ele o horror que os aguardava na superfície. Os dois partiram a leste do bunker, sob uma neblina pestilenta e um céu nublado. A paisagem era um mar de pilhas de lixo e entulhos, uma visão dantesca que parecia saudar a sua chegada com um silêncio mortal. Enquanto buscavam desesperadamente por recursos, depararam-se com duas criaturas sinistras, remanescentes dos horrores que haviam testemunhado no hospital dias antes.

— Venha, vamos em silêncio por dentro dessa pilha de lixo. Vou atirar com meu lançador de pregos em um deles e os pegamos de surpresa! — sussurrou Tovak, com determinação nos olhos.

Preparando a arma improvisada, Tovak disparou, e o prego atravessou o crânio de uma das criaturas, que caiu morta instantaneamente. A outra, alertada pela morte do companheiro, saiu correndo, contornando a pilha de lixo, mas não sem antes lançar uma machadinha na direção de Tovak. O som do impacto e o estalo seco do crânio de Tovak foram seguidos por um filete de sangue escorrendo por seus olhos. Ele caiu morto, sem vida.

Dimas, com a adrenalina disparada, viu seu companheiro cair e, com o coração acelerado, correu para a pilha à esquerda. Arremessou a machadinha que estava enterrada na testa de Tovak, mas errou. A criatura contornou a pilha e, agora de frente para Dimas, avançou com outra machadinha. O golpe rasgou o colete à prova de balas que Dimas usava, mas não conseguiu feri-lo gravemente. Em um movimento ágil, Dimas contra-atacou, acertando o braço da criatura, que soltou um grito agudo de dor enquanto sangue negro escorria de seu ferimento. A criatura, com um golpe de baixo para cima, acertou a perna e o abdômen de Dimas, espalhando sangue pelo chão. Contudo, o ataque deixou a criatura exposta, e Dimas, com um golpe certeiro e cheio de fúria, decapitou-a.

Ferido e com a respiração pesada, Dimas correu até o corpo de Tovak, recolhendo seus pertences. Despediu-se rapidamente do amigo morto quando ouviu um estrondo seguido de uma explosão. Um avião caía a poucos quilômetros de distância. Dimas olhou ao redor e percebeu que estava sendo observado. Um homem saiu de trás de uma pilha de lixo.

— Eu sou Gilmar e vi tudo. Você deu cabo daquela criatura! Mas seu amigo deu azar, né?

— Pois é, você viu tudo e nem para ajudar? Enfim, você viu o avião? — respondeu Dimas, com amargura na voz.

— Sim, vi! Posso me unir a você? Que tal irmos até o avião?

— Ok! Vamos, não podemos ficar dando sopa.

Os dois partiram em direção ao avião e encontraram-no partido ao meio, sendo saqueado por pequenas criaturas aladas de forma organizada. Decidiram voltar e vasculhar uma loja de eletrônicos no caminho. Encontraram 21 queijos azedos em boas condições e um carrinho de carregar caixas com os pneus furados.

Voltaram para o bunker com os queijos e o carrinho. No caminho, avistaram uma roda gigante, relíquia de um parque de diversões em ruínas, que se erguia contra o horizonte cinzento como um símbolo de um passado irremediavelmente perdido.

E assim terminou mais um dia na desolação de um mundo devastado pela poluição ambiental, onde cada passo pode ser o último, e a esperança é um luxo que poucos podem se permitir. 

Anotações de Gustavo Negreiro


Thiago Roos


*Dungeon Trash é um jogo de horror e sobrevivência trash em um mundo devastado pela poluição ambiental. Está em fase de jogos teste e é de autoria de Thiago Roos e Thiago Elendil.

sábado, 22 de junho de 2024

Relato de sessão, Dungeon Trash, Dia 1


Dungeon Trash - Jogo teste aberto

Sessão 1: 05/06/24 no Discord do Rizoma (agradecimentos ao César pelo espaço)

Jogadores: Thiago Elendil, Ewerton, Gustavo e Xikowisk

Personagens: Afrânio (Elendil), Tovak (Ewerton), Dimas (Gustavo) e Zé (Xikowisk)

-x-

Dia 1 do Segundo Ano Pós-Bomba

Afrânio, Tovak, Dimas e Zé buscavam a melhor maneira de racionar os poucos recursos que ainda tinham para sobreviver. Restavam apenas algumas bolachas, água potável e dois litros de Trash Cola, que com sorte durariam pelo dia.

Sentados ao redor de uma pequena fogueira improvisada dentro do bunker, Tovak confirmou que o gerador havia se "entregado".

— Fiz o meu melhor, mas não tem jeito. Temos que ir à superfície para encontrar uma correia, ferramentas e combustível se quisermos manter essa geringonça operante — disse, após molhar a garganta com o resto de Trash Cola.

— A comida e a água também estão acabando. Não vai ter jeito mesmo! Temos que nos arriscar — emendou Afrânio.

Os quatro incautos decidiram explorar ao norte do colégio onde o bunker estava situado. Dimas notara, na última vez que passaram por lá, um hospital e uma pilha de roupas no hall de entrada, onde poderiam encontrar algo de valor além de mantimentos durante a exploração.

Porém, no momento em que Afrânio abriu a comporta do bunker, foi obrigado a fechá-la imediatamente ao constatar que chovia ácido.

Esperaram por cinco horas e, próximo das 13h, saíram em direção ao hospital sob uma temperatura fria de uns 10 graus Celsius. Ao chegarem, avistaram a pilha de roupas logo no hall de entrada, mas decidiram fazer uma ronda no perímetro para garantir um pouco de segurança.

Os quatro decidiram circular o hospital por fora do pátio, cercado por telas. Avaliando com cautela, constataram que havia seis banheiros químicos com as portas abertas, enquanto ouviam o som de um motor veicular na rua atrás do hospital.

Afrânio tocou no ombro de Dimas e fez um sinal informando que investigaria os banheiros. Dimas acenou e o seguiu com um machado em punho. Zé e Tovak decidiram esperar, vigiando o perímetro.

Afrânio esgueirou-se entre contêineres de lixo e espiou em direção aos banheiros. Seu coração acelerou quando a temperatura começou a cair bruscamente e pequenos flocos de neve escorreram por seu nariz. Ele avistou duas criaturas estranhas, humanoides curvados, com braços longos, orelhas grandes e circulares e um nariz que parecia um focinho de uma besta infernal. Afrânio engoliu seco e, com a voz quase inaudível, pediu para Dimas voltar e avisar os outros.

Após alguns minutos, Dimas, Zé e Tovak chegaram até Afrânio.

— Eu vou dar fim a um deles e vocês dão cabo do outro — resmungou Afrânio.

— Você é louco! Vamos esperar um pouco! — A lucidez de Zé tentou subverter a ideia de Afrânio.

Os quatro entraram em consenso e decidiram esperar. Afrânio, observando as duas criaturas, notou que uma começava a dirigir-se para a rua de onde vinha o som do motor veicular, enquanto a outra entrava em um dos banheiros químicos.

— Agora é a hora! Vamos dar cabo do que entrou no banheiro! — disse Afrânio.

Os quatro se dirigiram até o banheiro, já com armas em punho e a ansiedade pulsando. Ao chegarem à porta, que estava aberta, sentiram um misto de alívio e decepção. Alívio por não precisar enfrentar aquela criatura horrenda, e decepção ao constatarem que o banheiro era uma passagem para o subterrâneo. Um enorme buraco no chão sujo e fedorento, no lugar do vaso sanitário, estava ali como uma boca aberta pronta para engoli-los. Os quatro encararam a cena com as mãos nas narinas para não vomitar diante da podridão.

— Deixemos isso pra lá, vamos seguir o outro e ver o que está acontecendo naquela rua! — resmungou Tovak.

Perseguindo a passos cautelosos, os quatro se esgueiraram até a esquina, pegando cobertura na parede do hospital. Afrânio, devido à pouca visibilidade causada pela neve e pela pouca luminosidade natural, decidiu colocar seus óculos de visão noturna e espiar para ver o que estava acontecendo.

Afrânio enxergou sete daquelas criaturas horrendas que estavam no banheiro, junto à que eles estavam perseguindo. Elas estavam em cima de um palanque de madeira, comemorando e debochando de outras seis criaturas que se aglomeravam ao lado de duas gaiolas motorizadas com quatro rodas enormes. Em questão de alguns minutos, Afrânio percebeu que essas outras criaturas eram menores e começavam a correr para pegar impulso, abrindo asas e saindo voando! Enquanto uma delas partia em sua gaiola motorizada, as criaturas do banheiro começaram a voltar com uma caixa que parecia ser o prêmio disputado com as outras criaturas, dirigindo-se na direção dos quatro incautos.


Afrânio, Dimas, Tovak e Zé correram de volta, em busca de cobertura para se esconderem e observar. Constataram que as criaturas também adentravam pelo banheiro, e o silêncio tomou conta do local.

— Vamos voltar, está frio e escurecendo. A neve vai piorar! — resmungou Zé.

No caminho de volta ao bunker, os quatro incautos, por sorte, encontraram recursos para aguentarem mais três dias nessa podridão que se tornara o mundo.


Dungeon Trash é um jogo de horror e sobrevivência Trash em um mundo devastado pela poluição ambiental. Está em fase de jogos teste e é de autoria de Thiago Roos e Thiago Elendil.

Thiago Roos

quarta-feira, 5 de junho de 2024

Relato de sessão, Kalymba, A doença, parte 1


Jogo: Kalymba

Data: 2024-06-03 20:00

Nível: Moleque

Sinopse: Os Guardiões de Pontalua convocam até 5 dos seus valorosos membros para investigar sobre uma estranha doença mortal que é capaz de matar criaturas pequenininhas mais rápido que Agogwe botando as tripas para fora...e é exatamente isso que está acontecendo, entre outras coisas. Precisamos urgentemente de membros corajosos dispostos a investigar e resolver a desgraça antes que toda uma tribo de bondosos Agogwes batam as bolas e desapareçam para sempre da face de Aiyê.

Griô: Rodrigo Semente

Protagonistas: Nawi (Rabelo) e Wina (Xikowisk)

-x-

Após a convocação de Kartha, a cartógrafa, surgem dois novos membros para os Guardiões: Wina, a bouda devota de Yami; e Nawi, a humana mandingueira porradeira devota de Bao. As duas recebem de Kartha a missão de descobrir a causa da doença descoberta anteriormente por outro Guardião (Doduo) que trouxe um agogwe para a Pirâmide.

Os dois aceitam a missão e recebem, jogado em seus braços, o pequeno Mogli, o agogwe. Wina se joga da Pirâmide ao saber que Mogli consegue cair lentamente através de mandinga, que é seguido pelo pequeno peludo que se diverte muito com a possibilidade de se estabacar no chão, deixando pra última hora o uso da mandinga, o que faz Wina se borrar de medo. Em seguida Nawi pula e usa com mais tranquilidade a mandinga parando com mestria próximo a Wina e Mogli.

Os três seguem para a vila do pequenininho e, lá chegando, verificam que metade dos agogwes já morreram. Conseguem falar com Kumba, um agogwe obeso cuja maior diversão é comer, e descobrem que o começo dos eventos se devia a água preta encontrada no rio próximo. Então eles distraem os agogwes, fingindo brincar de esconde esconde, e rumam para o rio, onde logo de cara encontram a mancha escura. Puxando da memória, Nawi acha que pode haver alguma relação com uma praga lançada por um devoto de Ulom.  Wina toca a mancha com sua azagaia, e vendo a proliferação desta, larga a arma e recua do perigo com um passo para traz. Nawi usa sua mandinga para criar frutos da cura e despeja o sumo de um deles no pragado objeto como experimento. Percebendo que dissolveu a mancha, usa mandinga para detectar a origem da praga. Avista uma tênue aura conectando-a com algo ao sul.

As duas partem para o sul através da floresta e após um dia de viagem Wina percebe um cheiro semelhante ao deixado pela gosma em sua azagaia resgatada. Tomada da pressa que o rastro exigia, corre em direção ao cheiro chegando a uma rocha que tinha sua superfície esculpida como se fios de palha fossem. Wina sente a aura do local e é atacada pela sessão avassaladora vinda da rocha, que parece misturar uma aura divina em briga com uma aura corrompida.

As duas decidem não entrar no local no momento para reportar aos Guardiões as descobertas.

Rodrigo Semente

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Óciocast #0012 Tá dominado! #001 Além do Rio Negro


Baixe em MP3

Alô você de todo mundo que se liga no Óciocast. Começa agora o Tá dominado, projeto de contagem de estórias de domínio público, engavetado há 4 anos. Pra começarmos os trabalhos, Maricota lê pra você Além do Rio Negro.

Publicado pela primeira vez na revista Weird Tales , volume 25, números 5 e 6, em maio e junho de 1935, Além do Rio Negro, de Robert E. Howard, foi o 1º conto publicado sobre Conan, o bárbaro.

O prefácio da história fala da jornada de Conan a Punt com Muriela, uma fraude perpetrada contra os adoradores de uma deusa de marfim, e depois para Zembabwei, onde ele se junta a uma caravana de comércio a caminho de Shem. Por volta dos 40 anos agora, Conan visita sua terra natal e descobre que seus velhos amigos são agora pais. Entediado, Conan parte para as Marchas Bossonianas e se torna um Escoteiro em Fort Tuscelan, no Rio Negro, na fronteira oeste da recém-conquistada província aquiloniana de Conajohara.

Espero que goste.

Agradecemos sua audiência. Deixe seu comentário em nosso site ociolevaaovicio.blogspot.com.br. Sigam-me os bons em @Ociocast no Twitter, curta nossa "fanpage" em fb.com/Ociocast, mande seu e-mail para ociolevaaoviciopodcast@gmail.com

Beijo no quengo e até a próxima.



sexta-feira, 1 de junho de 2018

Óciocast #0008 Muiraquitã

Ilustração original de BAR

Baixe em mp3

Alô, você que se liga no Óciocast. Eu sou a Maricota. O Xikowisk tá com um galho no microfone e me pediu pra gravar este episódio.
Hoje, começamos a iniciativa de Contagem de Histórias do Óciocast com o conto, vencedor do Concurso "A Bandeira do Elefante e da Arara RPG", promovido pela página da REDERPG, com o patrocínio de A Bandeira do Elefante e da Arara.

Pedi para o Zezinho lè-lo pra vocês. Divirta-se.

Muiraquitã, de Simone Saueressig.

Maria Mandioca.

Preta, puta e feia. A puta mais feia das que trabalhavam no porto. Mirrada de dar dó. Olhos de fome. Boca caída. Mal saiu da infância na cozinha da casa, abortou. Foi o primeiro. Depois do terceiro natimorto, a mulher mais velha da senzala disse que se sobrevivesse àquela sangria, nunca mais teria filhos.

Maria sobreviveu.

A dona da casa, esposa do dono da fazenda de cana-de-açúcar, disse que não queria mais a negra na sua redondeza. “Traste”, foi o que ela disse. O senhor do engenho não quis perder o negócio, então a enviou para uma casa de meretrício, que lhe garantia algum lucro na venda direta da cachaça que produzia no engenho, aos marinheiros portugueses. O gerente era um conhecido seu. Dividiam os lucros.

Maria Madioca era das que dava menos renda. Só os mais pobres e porcos iam com ela. A moça não falava nada. Ficava com os olhos parados, olhando o teto, enquanto eles iam e vinham dentro dela, uma certa sofreguidão, uma certa urgência. No começo, até contavam quantos homens tinha atendido – o gerente era meio maníaco por manter contagem de tudo, e o dono deles, de Maria, do gerente, do engenho, também gostava das contas bem claras – mas depois foram deixando pra lá. Maria contou até o sexto. Dali em diante não sabia o nome de número algum. Mas quando suas contas chegaram à dez mãos fechadas, decidiu duas coisas: seu nome não era Maria Mandioca, e aquele seria o último homem. Quando ele terminou e rolou de cima dela, respirando aos arrancos, ela levantou silenciosa, agarrou o facão dele ao lado das calças arriadas ao lado do monte de palhas sujas onde tinham se deitado e antes que ele esboçasse um movimento, degolou-o.

Depois sentou, quietinha, olhando o sujeito e até chorou um pouco: era o moço mais bonito que já tinha tido entre suas pernas, era o primeiro homem que matara, e fora o único a subir nela que tinha todos os dentes na boca. Mas como o tempo não para, ela logo se refez, pegou as roupas dele e as vestiu: a sorte é que o gajo tinha mais ou menos o seu tamanho. Só as botas ficaram grandes, mas o resto até que era confortável. Ela enterrou o chapéu na cabeça e, como vira muitos deles fazer para escapar sem pagar por um prazer tão ruim, pulou a janela e caiu no beco atrás da casa, sentindo debaixo dos sapatos, a lama fedida do cais se remover.

E se apoiou na parede, olhando o final do beco com medo e algo feroz, que ainda não tinha nome, tonta de liberdade.

“Eu vou morrer”, ela pensou. E depois “mas não aqui”. E depois, ainda “não hoje”.

Fugiu. Quando o dia nasceu já estava longe, se arrastando como dava pelas margens de um rio que lindava com as muralhas do Mosteiro de São Bento. Nunca soube como não a encontraram – talvez o homem que tinha matado não fosse assim tão importante, talvez fosse porque a saudação à Ogum e Iansã estivessem sempre nos seus lábios: o guerreiro que abre os caminhos, a rainha que manda na guerra. E quando finalmente a floresta a acolheu em sua sombra, a floresta de verdade, ela não esqueceu de agradecer. Tinha uma fome atroz – mas com isso já estava acostumada – e um medo gigantesco que se multiplicou no silêncio sombrio da mata. Não sabia onde estava, não sabia para onde ia. Todo seu corpo tremia de pavor, entendendo que ali mais adiante ouviria o latido dos cães a sua procura. Mas também entendia que estava livre, livre até a morte, fosse ela quando fosse. Lembrou de um homem que vira uma vez, quando acompanhou uma das escravas que vendia doces junto à igreja, para maior riqueza do seu dono. Era um negro de porte majestoso, que passou pela vendedora e sorriu um pouco. Atrás dele vinha um bandeirante de cabelos vermelhos e gibão azul, um chapéu de aba larga e pluma esvoaçante. Maria seguiu a sombra dos dois com olhos de inveja, porque sabia que Oludara tinha sido alforriado um dia por Gerard von Oost, os dois aventureiros da Bandeira do Elefante e da Arara que tinham salvo Olinda de uma criatura conhecida como Pai do Mato ainda no ano anterior.

Para os homens, eram dias de aventura. Sob o sol, o mundo era o mapa sobre o qual caminhavam sem receio.

Para as mulheres, eram dias de sempre. Nas sombras quietas do medo, o mundo era a casa fechada onde rezavam, coziam e pariam com dor.

Ela decidiu que seus dias, fossem quantos fossem, seriam como ela quisesse, onde quisesse. E assim, pôs o medo de lado e mergulhou na floresta e suas mil maneiras de morrer.

Maria Mandioca sobreviveu a isso. Tinha ouvidos bons e o que tinha ouvido dos homens na barra do puteiro, enquanto eles se embebedavam com pinga ruim, lhe deu algum alento para continuar. De milagre em milagre, de golpe de sorte em golpe de sorte, Maria conseguiu vencer as distâncias gigantescas daquela terra sem fim e sem lei, mas já com donos de vidas e mortes. Por onde ia, vestia-se assim, como um rapaz, e se tivesse de entrar em um vilarejo, o fazia à discrição, já quase caída a noite. Não falava com ninguém. Com o tempo, a voz, que antes mal tinha usado, desapareceu dentro dela atrofiada de silêncio. Quem a via, pensava no negrinho de algum senhor que logo apareceria com uma bandeira, em busca de índios, de pedras preciosas, de alguma tropilha perdida de cavalos, e quanto mais ao norte ela ia, mais falavam no rio que parecia um mar e no reino do El Dorado.

Quieta, Maria deslizava entre os casebres de pau a pique e telhado de sapé, e logo que podia se refugiava nas sombras das árvores gigantes.

E assim foi, até que chegou o dia em que se deparou com Memby.

Foi em uma praia muito, muito distante, mata a dentro, terra a dentro, continente a dentro. Maria Mandioca já sabia usar o facão, arco e flecha e a remar canoa, já sabia o que comer e o que caçar. Seu corpo era pequeno mas já não era mirrado, e mesmo que não soubesse, seus olhos não tinham mais aquela fome perpétua. Seu braço, agora, tinha força e, seu passo, a segurança de quem sabe que o próximo, se for o último, será bem dado.

Maria tinha, agora, outra gana, mas ela não sabia disso. Talvez ainda fosse feia. Mas Memby não viu isso.

Memby era alta e forte. Os cabelos longos e pretos estavam presos na nuca e vestia o corpo apenas com o maior arco do que Maria jamais vira, e uma aljava de flechas, que acomodava nas costas. A tira transpassava o peito direito, amputado quando era ainda uma mocinha e a cicatriz era um talho branco sobre a pele clara. O seio esquerdo era uma afronta, de tão belo.

Memby era icamiaba.

Maria Mandioca olhou Memby e pensou que a morte pode ser bela.

Memby olhou Maria Mandioca e achou que tinham encontrado o homem que lhe daria o próximo filho.

O embate foi terrível. O vento dos golpes chacoalhou as ramas mais baixas e, nas águas do rio, surubim fugiu, uma sombra prata dentro das águas escuras. Tartaruga nadou pra longe. Nem jacaré ficou esperando para ver quem sobrava para devorar, quem sabe, o corpo nos últimos suspiros. Era como a luta entre duas onças, uma escura e outra clara, duas feras de força, agilidade e beleza. E como reza a tradição, foi a icamiaba que terminou vencendo, ofegante, suada, um sorriso vibrando na cara bonita, e em toda ela estava a beleza da floresta e seus filhos.

Deitada de costas na areia clara, Maria Mandioca achou que era a morte, enfim, a morte que tinha chegado, e que as mãos claras que empurravam seus ombros não tardariam por sufocá-la. Daí que seus olhos brilhavam já com a noite escapada da semente da tucumã e não havia muito o que fazer: ela escorregou as mãos por entre os braços fortes da guerreira e segurou seu rosto e a puxou e a beijou, porque se era para morrer, que fosse com o que nenhum dos homens que tinham estado dentro ela, jamais tinha lhe dado. Maria Mandioca beijou a icamiaba, e Memby se esqueceu de tudo, e a luta virou outra coisa, e quando descobriu que o moço era uma moça era tarde demais, e o coração da guerreira tinha se rendido à coragem, à força e a raça da vencida.

Foi uma longa noite bela. Maria descobriu, surpresa, que havia algo de bom nos braços de outro ser humano. Memby descobriu, surpresa, que havia mais prazeres entre os seres humanos, do que imaginava até então.

Quando o sol nasceu, Memby levou Maria para a sua cabana, na cidade das icamiabas. E era um pouco estranho ver aquelas mulheres valentes cuidando de suas filhas maiores e dividindo suas casas com amantes que tinham trazido consigo de outras tribos. Guerreiros de muitas nações, fortes, valentes, domados pelas donas de seus corações e desejos. Havia até um espanhol, que todas as manhãs se açoitava, e guardava com cuidado uma batina escura como breu. As noites eram boas, doces e quentes. Os dias longos, iluminados e bons. Algumas mulheres olhavam com desconfiança para Maria, mas não diziam nada. Memby as encarava com vigor e se alguém tivesse pensado em dizer algo, dava de ombros e seguia com seus afazeres. Afinal de contas, ninguém tinha nada que ver com aquilo. Desde que Memby concebesse, tudo estaria bem.

Mas, é claro, o ventre da icamiaba teimava em manter-se plano.

Então, um dia, Memby desapareceu. Voltou duas noites depois, cansada e quieta, muito séria. Levou algum tempo até que o sorriso voltar a se abrir nela. Talvez um ou dois beijos, ou um ou dois carinhos. O que se sabe é que naquela noite, as duas ficaram abraçadas e não dormiram, apenas ficaram ali, balançando a rede de leve, olho no olho, e todos os sonhos passando por eles. E o ventre de Memby, enfim, cresceu, sua teta encheu-se de leite. Ela ficou cansada, pesada e às vezes de mau humor.

E um dia, os gêmeos nasceram: um menino e uma menina. Porque, afinal de contas, tinha de ser assim. Nunca antes o coração de Maria Mandioca se encheu de tanto amor quanto naquele momento em que segurou junto ao peito seco os filhos de sua mulher. As duas guerreiras choraram juntas e finalmente Maria soube que aquela coisa feroz que sentira na noite em que tinha pulado a janela, tinha voltado e trazido seu nome com ela: felicidade.

Quando Memby voltou a andar, ela embrulhou o menino em um pano alvo, feito com a lã de um bicho que vivia muito longe dali, e na primeira Lua Cheia depois de dar a luz, levou seu filho e a sua esposa, a outra mãe dele, para longe da aldeia. Pararam junto a um remanso de rio onde havia uma piroga de bom tamanho, cheia de mantimentos, e uma cesta repleta de metal dourado. Memby colocou o filho no fundo do barco e se voltou para sua mulher. Maria apertou os lábios e chorou um pouco quando sua esposa tirou da aljava uma pedra da cor da mata: lama verde da lagoa encantada, de onde as icamiabas tiram o material para fazer o muiraquitã sacralizado pelo rio-mar e pela luz de Cairé, o lua cheia, que é fiel guerreiro de Rudá, o deus do amor. Memby colocou o presente no pescoço de Maria, beijou-a pela última vez e, antes que o filho reclamasse o seu leite, deu as costas para a sua família e entrou na mata, que se fechou como uma muralha atrás dela. Não voltou os olhos nenhuma vez. Talvez soubesse que se fizesse isso, não poderia partir jamais, e isso seria o fim do amor de sua vida.

Seja como for, foi desse jeito que minha mãe voltou para a cidades dos brancos de posse de um filho e do seu verdadeiro nome: Maria Tucumã, dona de terras compradas a ouro e sangue, senhora de engenhos, de vidas e mortes sobre elas. E eu, que vim com ela, envolto em lã de lhama branca, tenho orgulho de dizer que essa pele que me cobre não é branca, nem negra, nem parda.

É cor do que um dia será Brasil.

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